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Volta às aulas? Para qual escola?
Covid-19 | Pra Vida Não Parar

Volta às aulas? Para qual escola?

O Governo Federal, desde o início da pandemia da covid-19 estabeleceu normas educacionais excepcionais para atender o estado de calamidade pública causado pelo coronavírus, o ceifador de vidas.  O vírus denominado SARS-CoV-2 com mutações exponenciais típicas da nossa era globalizada, em sua nova variante assassina, mostra para a sociedade que vidas, economias, sonhos, filosofias (…) podem imediatamente sofrer transformações. O estado pandêmico atingiu de forma dispare a sociedade, e novamente tivemos o fortalecimento da diferença entre ricos e pobres. Países altamente qualificados cientificamente, com pilares democráticos e a preponderância mínima de bom senso ocupam novamente destaque no cenário do caos.

A escola como parte desse universo social foi abalada e sofreu diversas mutações, tal como o vírus avassalador. Escolas em todos os níveis, das mais tradicionais até aquelas que já usavam tecnologia, tiveram que se reinventar para manter-se diante da sua missão. A pandemia tem sido cruel com o ambiente educacional, e tem revelado o lado sombrio que negamos constantemente. A escola que deve ser o lugar para atender todos, tem se revelado espaço de segregação.

Por mais que os gestores, os professores, pais e estudantes tenham tentado aprender apenas com aulas no ensino remoto, precisamos ser sinceros e reconhecer que não temos um pacto digital em que todos tenham acesso à internet, que muitos pais não tem conhecimento para ajudar seus filhos, e muitos daqueles que tem conhecimento, não conseguem fazer por conta de suas atividades, e ainda, temos uma questão cultural que relegou ao nosso povo que aprendizagem com tecnologia deve ser apenas para adultos que buscam curso a distância. Temos que ser realistas diante do cenário potencializado pelo vírus. A escola é um espaço necessário para o desenvolvimento social, mas ela deve ser um lugar onde preparamos as novas gerações justamente para o enfretamento da necessidade de readequar e reinventar há todo momento.

O estudo da Insights for Education revelou que somente os países em desenvolvimento realizaram fechamento total das escolas. Podemos até fazer conjecturas, afinal, povo sem educação e cultura é de fácil dominação. Mas temos que ir além e pensar no papel da escola. A escola que justamente em seus currículos trabalha com projetos de vida, que fortalece os valores universais dos direitos humanos e da ética (…) e se os membros dessa escola não conseguem sair da teoria, significa que não seguirá os protocolos de segurança, que mesmo com a vacina continuarão com velhos hábitos, que todos os sofrimentos com as vidas ceifadas, foram apenas mais um conteúdo que ao término da educação básica ou superior tivemos no currículo, e que de fato não conseguimos aplicar.

Precisamos compreender e aprender que o espaço educacional é híbrido, com tecnologias digitais e analógicas, que o conteúdo precisa ser vivenciado. Ao observarmos as políticas públicas nacionais iremos reconhecer que há muito tempo os espaços educacionais são utilizados para servir aos propósitos da nação e recentemente inclusive, tivemos eleições municipais, ou seja, quando necessário o espaço pode ser utilizado. Esse espaço em que devemos aprender e mudar nossas atitudes diante da vida, está sendo suprimido justamente daqueles que mais necessitam. A escola é sim, um agente de transformação social, local onde aprendemos desde a tenra idade conviver com os outros e consigo mesmo. A escola é o primeiro espaço fora do seio familiar em que somos testados socialmente, revelam-se as potencialidades e as fragilidades das famílias, ou melhor, da sociedade que estamos ajudando a formar. A infraestrutura e o corpo social da escola são a segunda família de muitas crianças e adultos. Repense, a criança pequena chama o profissional do portão de tio, pois confere àquele adulto um sentimento, um reconhecimento como membro de sua família, que sabe que pode correr no meio intervalo e pedir ajuda. Com certeza temos aquele grupo de amigos no aplicativo dos tempos da faculdade, talvez tenha ido num casamento, batizado um sobrinho que nasceu durante o curso. Emoções construídas a partir do meio educacional. A escola é uma grande casa, e como nas nossas casas, ensinamos nossas crianças, adolescentes e adultos os caminhos (in) seguros dessa vida globalizada.

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A discussão do retorno presencial aos ambientes escolares, é mínimo e necessário, mas precisamos compreender que a escola é um local onde teorias precisam ser vivenciadas. Se trabalhamos principalmente na área de ciências biológicas sobre vírus, transmissão e tantos outros elementos que circundam à vida humana, precisamos praticar. Respeitar quando um colega de escola está com gripe, indiferente da potencialidade do vírus, o mesmo deve ficar recluso. Se é público e notório que doenças podem ser transmitidas com relações sexuais ou uso compartilhado de seringas, qual motivo de aumentar o número de infectados após todos esses anos. Se sabemos que dengue mata e ainda mantenha o vaso de flor com água no prato, assumo que sou irresponsável e causo mortes, semelhante ao vírus. Se ainda tenho coragem de jogar papel pela janela e pelo fato de coadunar com políticas de desmatamento.

Retornar ou não presencial é uma discussão necessária, mas precisamos extrapolar da escola da teoria para escola da prática. O conhecimento humano acumulado precisa ser preponderante e dominar o instinto. Este instinto que acredita ser imortal, que não tem responsabilidade com seu próximo e consigo mesmo, pois acredita que pode tudo e todos os tempos, precisamos como adultos formadores das novas gerações promover mudanças de micromundo, e mesmo diante das inúmeras dificuldades devemos lutar para que o espaço escolar não atenda apenas anseios daqueles que querem nos dominar. E como conhecedores das falácias humanas devemos colocar em prática nossa teoria. E a pergunta que nos cabe fazer é para qual escola voltaremos?

Sobre Autora: Profa. Dra. Dinamara P. Machado é diretora da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.

As opiniões expressadas nos artigos não refletem necessariamente a posição institucional do Centro Universitário Internacional Uninter. 

 

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