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Somos ridículos (de legais) e daí?
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Somos ridículos (de legais) e daí?

Danielle Fracaro da Cruz 

Thays Carvalho Cesar 

Fazemos escolhas o tempo todo, dentre elas escolhas lexicais, afinal temos autonomia para decidir quais serão as palavras e/ou expressões que utilizaremos nos mais variados contextos. Em decorrência disso, pode-se dizer que a língua muda. As gramáticas resultam normalmente de um trabalho fundamentado na língua literária, contudo, ela não é a língua comum, essa que usamos em nosso dia a dia quando conversamos, lemos jornais, revistas, ouvimos notícias pelo rádio e pela TV. A língua é viva e acompanha o desenvolvimento da sociedade e as necessidades comunicativas dos falantes.  

Recentemente vivenciamos uma polêmica, protagonizada por Everaldo Marques, narrador da Globo, que atribuiu um novo significado à palavra “ridículo”. O narrador, conhecido por narrar os jogos da NBA (Associação Nacional de Basquetebol dos EUA), fez uso do bordão “Você é Ridículo!”, como forma de enaltecer as vitórias brasileiras nos Jogos olímpicos de Tokio.  Mas afinal, qual seria a intenção do narrador ao fazer uso de um adjetivo que, segundo o dicionário, está revestido de uma conotação negativa, para um momento de comemoração pelas medalhas recebidas? 

Mesmo que pareça sem prestígio, a utilização linguística dos bordões não deve ser desprezada, já que está atrelada aos aspectos sociolinguísticos, principalmente, aos fatores culturais que estão relacionados à TV brasileira. São essas marcas e expressões que carregam uma carga de humor e marcam personagens, que se eternizam historicamente na linguagem popular. O uso da língua varia de época para época, de região para região, de classe social para classe social, e, neste caso, de contexto para contexto.  

Nos estudos de linguística textual conduzidos por Koch e Travaglia, a intencionalidade está relacionada ao modo como o produtor constrói seu texto a fim de alcançar seus objetivos na interação comunicativa. Para estudar a intencionalidade de um texto, é necessário avaliar se as intenções do autor são claras e definidas, caracterizando assim a intencionalidade explícita, ou se a intenção é percebida por meio de recursos linguísticos como a escolha do léxico, sentido figurado e ironia, o que caracteriza a intencionalidade implícita. 

Ao analisarmos o uso do bordão pelo locutor esportivo, compreendemos que houve intencionalidade implícita de Everaldo Marques, tendo em vista a opção de Everaldo pelo uso da expressão emprestada da língua inglesa e concordamos com o uso da expressão com a finalidade empregada.   

Portanto, sabe aquela jogada muito bem-feita? Aquele momento em que o atleta merece todos os elogios possíveis?  Pois bem, “that is ridiculous”, em língua inglesa. A expressão, utilizada de forma corriqueira nos esportes na “terra do tio Sam”, não tem conotação negativa ou a intenção de macular a imagem de determinado jogador, mas de exaltar seus feitos esportivos.  

 

Danielle Fracaro da Cruz é mestre em Teoria Literária, professora da área de Linguagens e Sociedade, Letras e História da Escola Superior de Educação da Uninter. 

Thays Carvalho Cesar, professora do curso de Letras da área de Linguagens e Sociedade do Centro Universitário Internacional UNINTER. 

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