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Opinião: sobre arte e cultura em tempos de pandemia
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Opinião: sobre arte e cultura em tempos de pandemia

“O jovem sorri na tela enquanto ela dura”, escrevem Gilles Deleuze e Félix Guattari logo no início do capítulo que dedicam à arte no bem conhecido livro O que é a Filosofia? De modo direto, o que os autores afirmavam de maneira meio cifrada era apenas uma verdade: a arte produz presença.

A Olympia, de Édouard Manet, ainda nos fita com seu olhar meio insolente, do mesmo modo como tem feito com cada espectador ou espectadora que se coloca diante de sua tela-morada desde a segunda metade do século XIX. O prazer experimentado junto a Marcel Proust em seu relato da experiência com uma simples xícara de chá e um bolinho em formato de concha estão presentes naquelas mesmas páginas de Em busca do tempo perdido.

Os Bichos de Lygia Clark, atentos e desafiadores, estão sempre na iminência do próximo movimento e o Ícaro de Matisse não cansa de nos emocionar enquanto despenca do céu, em meio às estrelas, sem nunca tocar o chão. Para Deleuze e Guattari, aí está a questão: a arte conserva e se conserva, como um puro “bloco de sensações” sempre conjugadas em tempo presente. Mas é justamente essa presença produzida pela obra, espécie de fagulha de vida que estala na experiência única de seu encontro, que se põe em suspenso neste momento. A arte, que não pode ser verdadeiramente experimentada na distância, padece em tempos de pandemia. No olho dessa crise, é preciso dizer, se encontram as artes visuais.

Aqui, é importante fazer uma distinção entre as linguagens. A música e o cinema já haviam passado por significativas transformações em seus meios de produção e circulação desde as últimas décadas do século XX e que tornaram, talvez, esse momento presente menos traumático. Os grandes impasses que levaram à implosão da indústria fonográfica, que movimentava uma economia baseada na venda de discos de vinil e, depois, CDs, são assunto do passado. Essa indústria já se reinventou, tendo de incorporar o inevitável acesso espraiado aos meios de produção, mesmo que precários, à distância de um aparelho celular, e colocou seu foco na distribuição. Dito de outro modo, não foi preciso inventar a roda para se fazer ver e ouvir neste momento. Não por acaso, se multiplicaram as lives musicais desde o primeiro instante das medidas de distanciamento social: apresentações espontâneas ou patrocinadas, parcerias entre músicos, grandes estrelas midiáticas e ilustres desconhecidos, cada um de seu canto, partilhando o que produzem a partir de alguma plataforma, como já o sabiam fazer.

O cinema, ainda que continue a requerer estruturas profissionalizadas e orçamentos mais consideráveis, também foi aos poucos se despedindo da vida comunitária: primeiro, das grandes salas de cinema de rua para abrigar-se em múltiplas pequenas salas no interior de shopping centers, até encontrar morada nas plataformas de streaming, no conforto das poltronas de casa, à distância de um simples login no computador ou mesmo no celular. E nesses tempos de distanciamento, não faltou quem permitisse acesso a vastos catálogos da produção cinematográfica mundial. A literatura também caminha nessa mesma batida.

O teatro e as artes visuais, contudo, não gozam do mesmo destino. Essas duas linguagens permanecem agarradas ao corpo e dependem do encontro para sua existência. Alijadas de seu público, entraram também em quarentena. Sob o aspecto econômico e de subsistência, é claro que se encontram todos – músicos, artistas visuais, cineastas, atores e atrizes, artistas circenses, técnicos nas mais variadas especialidades, entre tantos outros pertencentes ao campo da cultura e do entretenimento –, em maior ou menor grau, em franca situação de fragilidade social. E é bem verdade que o mundo da arte – e aqui trato especificamente das artes visuais – também se agita para colocar seu bloco na rua virtual. Os museus ao redor do mundo, num inegável esforço educativo, têm colocado seus acervos digitalizados à disposição e, como medida para driblar a pandemia, as feiras de arte, que movimentam o mercado do setor mundo afora com cifras astronômicas, já anunciam suas primeiras versões online. O advento das feiras de arte, a perigosa aproximação da arte com o entretenimento vazio e o culto da mercadoria fetichizada que promovem não são novidades e devem ser encarados com seriedade, sobretudo diante de uma crise como a que agora atravessamos. Tais estratégias, ao pretenderem alavancar o mundo da arte e suas produções, ampliam a fissura já instalada em seu interior e acabam por exigir uma necessária reinvenção da prática das artes visuais.

O conteúdo do livro, da música e do filme não se transforma substancialmente nos diferentes meios: as madalenas de Proust estão ao alcance da experiência em um aparelho leitor digital ou nas páginas ásperas de um livro, a mesma canção de Chico Buarque pode ser ouvida ao mesmo tempo aqui ou em Istambul, assim como um filme de Godard. Uma imagem projetada ou na tela de um computador e uma visita virtual, por suas vezes, jamais serão substitutos para a experiência com a obra de arte – e aqui sublinho a palavra experiência, em relação direta com o bloco de sensações a que fizemos referência de início. Sua forma, seu peso, sua cor, sua escala em relação ao meu corpo só se dão assim: na e por meio da experiência. E essa experiência produzida pela obra e concretizada no momento de encontro com seu público, acima de tudo, não pode se furtar de travar um embate com o tempo presente, com todos os seus medos e impasses, suas angústias e aflições. A tarefa não é simples para uma arte que ainda se pretenda capaz de transformar seu entorno, num franco exercício de alteridade. Não será fácil, mas ninguém disse que seria.

Sobre a autora: Prof. Dra. Cristiane Silveira é docente dos cursos de Bacharelado e Licenciatura em Artes Visuais do Centro Universitário Internacional Uninter. Doutora em História, Mestre em Filosofia e Bacharel em Gravura.

*As opiniões expressadas nos artigos não refletem a posição institucional do Centro Universitário Internacional Uninter.

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